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06/04/2014   

Povo passa fome na Venezuela

A cena pode ser apreciada a qualquer dia nos principais supermercados de Caracas. Às oito da manhã da terça-feira umas duzentas pessoas guardam fila na frente da porta do Excelsior Gama de Santa Eduvigis, um dos centros comerciais melhor abastecidos da capital.

A maioria não sabe quais produtos chegarão. Mas sempre chega alguma coisa a preços subsidiados: café, farinha, arroz, óleo, feijões... Hoje há rumores que haverá leite, duas caixas de leite em pó e duas latas de leite condesado.

Caprilles diz: “Os protestos estão fazendo o jogo do Governo”

O gerente dispôs umas barracas para reparti-las. “Nos transformamos em um país de barracas”, lamenta uma senhora.

Não quero ver vocês brigando –adverte o gerente-, mas sim fazendo valer seus direitos. Aqui não há servidores públicos que se coleen (que se pulem a fila), nem nenhuma dessas bobagens. Não briguem.

Mulheres e homens chegaram ao leste saindo de todas as zonas de Caracas. Do mesmo leste, que é onde vivem os de maior poder de compra, e do oeste. Há uma linha tão clara quanto invisível entre as duas partes da cidade. Os estudantes que levantam barricadas contra o Governo de Nicolás Maduro desde o dia 12 de fevereiro o fazem no leste. E os chavistas convocam suas marchas no oeste. No entanto, a cada dia milhares de pessoas cruzam essa linha divisória para trabalhar ou comprar.

-Chavistas, que são todos chavistas!, espeta uma senhora aos primeiros da fila.

É loira, de olhos azuis e origem alemã. Tem 67 anos, é técnica radióloga e chama-se Palma Panucza. Depois explica: “Estes são todos buhoneros(comerciantes de rua), se queixam do Governo mas depois aplaudem como focas a Maduro. Estamos nos ‘cubanizando’. Em um país com tantas riquezas tornou-se normal fazer estas filas. Eu lhes digo: ‘Mas o que acham, que isto é a Suíça?’ E depois penso, ‘por que falo isto se não sabem nem onde está a Suíça!’

Muitos dos consultados opinam que a escassez de alimentos obedece ao mau gerenciamento do Governo. Mas também não compartilham das estratégias dos estudantes que protestam a cada dia levantando barricadas, chamadas coloquialmente guarimbas.

“Não digo que não protestem”, explica Raúl Montero, pedreiro de 30 anos, “mas que o façam de forma pacífica. No caso de uma emergência, como fazer para passar pela estrada? Por culpa deles a gente chega tarde ao trabalho e as crianças à escola”.

Uns cinco rapazes levantam as mãos rindo e entoam Pátria querida, a canção que cantou Hugo Chávez antes de viajar a Cuba por última vez.

“Debocham de nós, estão nos chamando chavistas”, diz um homem que veio à fila saindo de um dos bairros mais humildes de Caracas. “Estão-nos dizendo: ‘aí tem, esta é a pátria que vocês queriam”. Outra mulher acrescenta: “Mas seguro que a mamãe deles faz fila aqui também”.

Uns criticam o Governo e outros culpam a eles mesmos pela escassez. Uma mulher lamenta:

-Há gente que vem todos os dias à fila. Pra que? Para vender o que compram.

E outra lhe responde:

-Não, senhora. Em um dia se vem pelo café, outro a por o açúcar, o leite...

E as duas têm razão. Há comerciantes de rua que revende, o que compram, há milhares de cidadãos que montaram em sua casa uma dispensa alternativa com itens para sobreviver durante meses. Há contrabando de alimentos na fronteira com a Colômbia. E há uma escassez de produtos básicos como nunca houve desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1998. O desabastecimento trouxe pequenas e grandes corruptelas. Há vigilantes nos centros que cobram dinheiro por avisar a tempo do produto que chega a cada manhã. “Os que trabalham nos supermercados ganham mais revendendo o que o salário lhes permite. Sei porque eu contribui para isso”, reconhece uma senhora.

Fonte: El País





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